Presenciamos a execução de verdadeiras obras de arte realizadas com farinhas e grãos que, em algumas horas, transformavam-se em enormes mandalas, coloridas, com simetrias perfeitas, simbolizando o ritual que seria realizado em seguida.
Observar o pujari criando tais obras foi fantástico. Ao construí-las, além da habilidade impressionante, a expressão natural de concentração por horas seguidas era contagiante. Simplesmente ele estava ali, totalmente presente, totalmente envolvido com o que suas mãos, seu corpo e seu cérebro executavam. Presenciar isso já foi uma aula, uma lição.
Mas ao fim dos rituais a pergunta era sempre a mesma: "E agora, onde guardamos a mandala?" Que era respondida com sábia simplicidade: "Devolvam-na à natureza!" O que para nós (ocidentais - que insistimos em congelar, fotografar, eternizar) era traduzido por: "Jogá-la fora? Desmanchar essa obra assim, sem mais nem menos, depois de horas dedicadas à sua confecção?" Pois é... Jogávamos a grande tábua com a mandala nos jardins, que desmanchava-se com a rapidez que a vida costuma soprar aqueles castelos que às vezes levamos tempos para erguer. Em um segundo as farinhas e os grãos coloridos misturavam-se, desfazendo as formas, o trabalho de horas, o desenho perfeito... E no dia seguinte, outra mandala era criada, com a mesma alegria, com o mesmo prazer, como se fosse a primeira, como se fosse a única. Como se fosse para sempre.
Estar no mundo sem ser do mundo.
Ter sem possuir.
Em alguma vida aprendo...
Jornal Universus - Março/Abril - 2005
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